CADERNOSASTROLOGIA · 28 de agosto de 2026
Eclipse Lunar em Peixes
Dois anos depois: quem nasceu dessa travessia?
POR FERNANDA PENTEADO

Em setembro de 2024, eu descobria que estava grávida.
Naquele momento, eu sabia que uma vida começava a ser gerada dentro de mim. O que eu ainda não poderia saber era tudo aquilo que, junto com ela, também começaria a nascer — e a morrer — em mim.
Hoje, quase dois anos depois, olho para quem eu era naquele momento e reconheço a distância entre aquela versão de mim e quem sou agora.
Minha filha nasceu.
Mas uma mãe também nasceu.
E, com ela, uma nova relação com o tempo, com o corpo, com o trabalho, com o amor, com as minhas prioridades e comigo mesma.
Algumas coisas que pareciam fundamentais perderam importância. Outras, antes pequenas, tornaram-se inegociáveis.
A vida mudou por fora.
Mas talvez as mudanças mais profundas tenham acontecido em lugares que ninguém poderia ver.
É justamente para esses lugares que este último eclipse lunar em Peixes parece nos convidar a olhar.
O que esses últimos dois anos fizeram nascer em você?
Uma história que começou em 2024
Antes de olhar para este eclipse, volte por alguns instantes.
Onde você estava em setembro de 2024?
Mais do que lembrar o que estava acontecendo, tente se lembrar de quem você era.
O que ocupava seus pensamentos? O que desejava? O que temia perder? O que ainda tentava sustentar?
Talvez algo importante estivesse começando de maneira evidente.
Ou talvez fosse apenas uma inquietação.
Uma relação mudando de lugar. Uma insatisfação difícil de explicar. Um desejo ainda tímido. Uma despedida. Uma vontade de viver diferente.
Nem sempre reconhecemos o início de uma transformação enquanto ela acontece.
Algumas histórias começam silenciosamente.
Só depois conseguimos olhar para trás e perceber:
foi ali que alguma coisa começou a mudar.
O ciclo de eclipses no eixo Virgem–Peixes vem nos conduzindo por essa paisagem simbólica: entre aquilo que conseguimos organizar e aquilo que precisamos entregar; entre o que pode ser compreendido e aquilo que só pode ser vivido.
Agora chegamos ao último eclipse lunar em Peixes deste ciclo.
E talvez ele não venha simplesmente anunciar algo novo.
Talvez venha revelar o que essa travessia fez conosco.
Quando compreender já não é suficiente
A Lua eclipsada está em Peixes, próxima ao Nodo Norte.
Do outro lado, Sol, Mercúrio e Nodo Sul estão em Virgem.
Virgem quer compreender.
Observa, organiza, nomeia, procura padrões, tenta encontrar a melhor maneira de seguir.
Precisamos dessa inteligência.
Mas existe um ponto em que compreender pode se transformar em uma maneira de tentar controlar.
Pensamos mais um pouco. Revisitamos uma conversa. Procuramos a peça que faltava. Tentamos encontrar uma explicação capaz de organizar tudo dentro de nós.
E Peixes nos lembra que nem todas as experiências oferecem esse tipo de conclusão.
Existem relações que terminam sem responder todas as nossas perguntas.
Escolhas cuja certeza só chega depois.
Perdas que talvez nunca façam completamente sentido.
Desejos que aparecem antes de sabermos o que fazer com eles.
Talvez uma das perguntas mais importantes deste eclipse seja:
Quanto daquilo que chamamos de segurança é, na verdade, uma tentativa de não sentir a incerteza?
Mercúrio junto ao Nodo Sul reforça essa mensagem.
Algumas explicações foram importantes para chegarmos até aqui.
Mas talvez já não consigam nos levar adiante.
Porque nem toda história precisa terminar com uma resposta para poder terminar.
Quando alguma coisa muda de lugar
Urano em Gêmeos tensiona o eclipse e introduz o inesperado.
Uma conversa pode mudar nossa percepção. Uma informação pode aparecer. Uma certeza pode deixar de parecer tão certa.
Mas nem sempre a ruptura acontece do lado de fora.
Às vezes, nada muda objetivamente.
Somos nós que mudamos diante da história.
Olhamos para algo que durante muito tempo provocou medo, raiva, saudade ou ressentimento e percebemos:
isso já não ocupa em mim o mesmo lugar.
Talvez essa seja uma das formas mais profundas de libertação.
O passado continua sendo o que foi.
Mas nós já não somos quem éramos diante dele.
E, algumas vezes, aquilo que sentimos como instabilidade é apenas o sinal de que o chão antigo já não consegue sustentar quem estamos nos tornando.
O que se tornou precioso?
Marte em Câncer forma uma relação harmoniosa com a Lua em Peixes e traz outra pergunta:
O que se tornou precioso demais para continuar sendo negligenciado?
Seu tempo?
Seu corpo?
Sua família?
Seu trabalho?
Sua criatividade?
Sua paz?
Um desejo que você vem adiando?
Uma parte de você que há muito tempo pede outra maneira de viver?
A mente pode negociar durante muito tempo.
O corpo costuma saber antes.
Ele cansa. Se inquieta. Se emociona. Recua. Deseja.
Muito antes de conseguirmos explicar o que está acontecendo, alguma parte de nós já percebeu que algo precisa mudar.
Toda gestação acontece no escuro
Talvez seja por isso que a imagem da gestação me pareça tão bonita para este eclipse.
Durante uma gestação, algo extraordinário acontece sem que possamos acompanhar completamente o processo.
A vida se organiza no escuro.
Podemos cuidar. Criar condições. Acompanhar.
Mas não podemos controlar cada etapa.
Existe um tempo que não nos pertence.
Existe mistério.
Talvez esses últimos dois anos tenham sido assim.
Enquanto estávamos ocupados vivendo, alguma coisa também estava sendo gestada dentro de nós.
Uma nova identidade.
Uma coragem.
Um limite.
Uma mudança de valores.
Uma maneira diferente de amar.
Uma escolha.
Uma vida que ainda não sabíamos nomear.
Às vezes chamamos esse período de confusão simplesmente porque ainda não conseguimos enxergar sua forma.
Mas nem tudo aquilo que está sem forma está perdido.
Algumas coisas estão sendo gestadas.
Volte a setembro de 2024
Agora volte novamente àquela época.
Quem era você?
O que parecia indispensável?
O que tentava preservar?
O que desejava em silêncio?
O que ainda não sabia sobre si?
E então olhe para quem você é agora.
Não pergunte apenas o que conquistou ou perdeu.
Pergunte o que aprendeu a não aceitar.
O que passou a valorizar.
O que deixou de desejar.
O que hoje consegue enxergar e naquela época ainda não conseguia.
Talvez uma dúvida tenha se transformado em consciência.
Uma perda tenha revelado uma direção.
Uma ruptura tenha criado espaço.
Ou aquilo que parecia confusão fosse apenas o começo de algo que ainda não tinha forma.
É assim que percebemos o tempo.
Não apenas pelo que aconteceu.
Mas por quem nos tornamos enquanto acontecia.
O que esses últimos dois anos fizeram nascer em você?
Quando olho para setembro de 2024, essa pergunta ganha para mim um significado muito concreto.
Eu sabia que uma criança começava a ser gestada.
Eu ainda não sabia quem eu precisaria me tornar para recebê-la.
Talvez aconteça assim com muitas das grandes transformações da nossa vida.
Primeiro reconhecemos aquilo que está acontecendo.
Só depois compreendemos quem aquela experiência estava nos convidando a ser.
Por isso, diante deste último eclipse lunar em Peixes, talvez a pergunta não seja apenas sobre o que está terminando.
Talvez seja sobre aquilo que finalmente conseguimos reconhecer.
Quem existe hoje que ainda não existia em setembro de 2024?
O que essa nova versão de você sabe?
O que já não aceita?
O que aprendeu a proteger?
O que consegue deixar ir?
Talvez essa seja a culminação deste eclipse.
Não chegar ao final da história com todas as respostas.
Mas olhar para trás e perceber:
eu atravessei.
A água não permanece onde estava.
Ela encontra passagem, muda de forma e segue.
Talvez Peixes nos ensine justamente isso.
Não precisamos conhecer todo o curso do rio para reconhecer que determinadas águas já passaram.
Nem precisamos saber exatamente quem seremos daqui para frente para reconhecer quem já não somos.
Há momentos em que a vida não pede uma conclusão.
Pede presença.
Não pede certeza.
Pede confiança.
E talvez, ao olharmos para setembro de 2024, a pergunta mais importante já não seja:
“O que aconteceu comigo?”
Mas:
“O que esses últimos dois anos fizeram nascer em mim?”
Porque há passagens que não se resolvem.
São atravessadas.
O que esses últimos dois anos fizeram nascer em você?
FERNANDA PENTEADO
Investigação Simbólica
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